sexta-feira, 27 de junho de 2014

Voluntariado

“Onde encontro um ser mortal, encontro Vontade de Poder.”
Frase atribuída ao filósofo F. Nietzsche

No próximo dia 28 de agosto, comemoraremos o Dia Nacional do Voluntariado, instituído, no Brasil, em 1985. Na Organização Internacional Nova Acrópole, voluntariado é o nosso dia a dia; no meu caso, já há 26 anos. Portanto, creio que poderia dizer algo sobre este dia e sobre essa virtude humana.
Não escapa à atenção de ninguém o fato de que o voluntariado tem sido abraçado por uma cada vez maior quantidade de seres humanos e instituições, e de que isso é uma esperança. Mas, como tudo que é humano pode ser sempre aperfeiçoado, acrescento algumas observações minhas a respeito do assunto.
Já encontrei vários tipos de voluntários; alguns o faziam por se acharem em falta com os homens ou com Deus, e por quererem “saldar” este débito por erros passados. Esse é um voluntariado que tem data para terminar (quando resgatada a última “prestação” dos enganos que se pensa ter cometido), e não deixa de ter uma mácula de egoísmo. Você me dirá, talvez: “Melhor assim do que não fazer nada!” Eu concordo; mas acho que essa ação poderia se aperfeiçoar ao longo do tempo, e harmonizar fins e meios; afinal, a busca da coerência e da harmonia também é virtude.
Outros há que sentem a necessidade de fazer um sacrifício em prol do bem alheio; também acho válido, e até belo o espírito do sacrifício. Mas esta postura sempre me faz lembrar de alguém que, um dia, após uma boa ação, desferiu a seguinte sentença: “Eu abri mão de muitas coisas por isso!” A expressão caiu mal, e me pareceu um lamento por perder algo de maior valor, em termos de prazer e satisfação, por algo de menor valor, dolorido, “sacrificado”. Ainda não é bem o espírito do voluntariado com que sonhamos.
Um dia desses, lendo Nietzsche, ouvi-o falar sobre a “vontade de poder”, e lembrei-me de que voluntariado vem do latim “voluntas”, vontade, e pensei se essa não seria uma boa explicação do que buscamos que seja o legítimo voluntariado. Ele diz que é inútil a moral que busca converter o homem através de máximas insípidas, como “seja bonzinho, seja bem comportado etc”. Todo ser humano busca, consciente ou inconscientemente, o Poder, e isso pode ser educado e convertido em ações morais.
Aí, chocamos com um preconceito nosso: “Mas o Poder corrompe...”. Não creio. Situações de Poder dão oportunidade para que a corrupção, que já estava latente neste homem em particular, se manifeste. Como dizia Machado de Assis, está errada a máxima popular que afirma que a ocasião faz o ladrão: “A ocasião faz o furto: o ladrão já nasce feito.” Poder é capacidade de ser, de fazer, de realizar, de transformar. A própria etimologia do nome poder vem do latim “potis esse”: posse do ser. É o atributo mais divino que consigo imaginar: não ouso pensar em um Deus débil... Quem nega o poder, faz culto, inconscientemente, à  debilidade.
Quando olhamos para o passado, longínquo ou recente, e vemos a grandeza, a pureza e a bondade que certos homens foram capazes de manifestar, não podemos nos furtar à conclusão de que esse potencial humano também existe,  adormecido, em nós. Não é à toa que o filósofo Platão dizia que todo homem deveria se inspirar em heróis, pois eles relembram quão grandes nós podemos chegar a ser.
Enamorar-se dessa nobreza latente que a nossa natureza presume e querer profundamente vive-la, trazê-la à tona, é Vontade de Poder. Continuava Nietzsche: “Há que substituir os códigos de moral por códigos de nobreza...”. Eu não chegaria a este exagero (tão tipicamente “nitzscheano”) de abolir códigos de moral, pelo menos não tão cedo, mas chego realmente a duvidar de que alguém ousaria dizer: “Eu sacrifiquei muita coisa para ser humano, para ser nobre...” O que você sacrificou, meu caro? O que havia de melhor, na sua vida, do que isso? E, se aquilo que foi “sacrificado” era inferior ao que ganhou, por que o lamento? Não seria mais lógico dizer: ”Eu sacrifiquei muito voluntariado por banalidades momentaneamente prazerosas, mas sem maior valor”?
Eu me chamo Lúcia Helena Galvão Maya, voluntária da Organização Internacional Nova Acrópole há 26 anos, trabalhando quase todos os dias por aquilo que acredito. O meu não é um voluntariado “perfeito”, pois eu mesma estou muito longe disso: faço apenas o melhor que posso. Mas, como filósofa, não abro mão do direito de sonhar com um voluntariado que seja glória e êxtase pela condição humana que me cabe, momento de felicidade e de realização não permutável por nada neste mundo. Isso me torna um ser em construção, enamorada da vida humana e dos seus sonhos mais dignos, entre os quais está o de servir ao Bem, e servir voluntariamente. Parabéns, Voluntários, pelo seu dia!

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