segunda-feira, 30 de junho de 2014

Um momento...

Em um deste dias, no meio de uma batalha épica contra formas mentais circulares, quase capitulando diante de um inimigo que ganhava trincheira a trincheira, eu procurava uma ideia poderosa o suficiente para me socorrer e inverter aquele placar ingrato. Após várias tentativas frustradas (o adversário não estava para brincadeiras), me veio a ideia redentora: por que não pensar... em Deus? Se há uma forma mental com poder de fogo contra artilharia pesada, deve ser esta, com certeza...
Porém, as ideias muito boas costumam ser de difícil implementação: o que significa exatamente “pensar em Deus”?  As imagens correram pela minha memória, sem muito sucesso: símbolos religiosos, livros sagrados, orações e até imagens de nascer e pôr do sol.... sim, talvez estas coisas o representem ou evoquem, em alguma medida e em algum momento, para alguém. Mas não são propriamente Ele; não o explicitam ou mostram de forma tão direta e, portanto, careciam, para mim, da força que eu necessitava naquele instante.
Rastreando minha memória, dei com uma muito famosa frase da filósofa Helena Blavatsky, que dizia mais ou menos seguinte: “Um único homem prova a existência de Deus, assim como uma única gota d’água prova a existência do Oceano.” Frase bela e muitas vezes repetida, com toda “pompa e circunstância”... mas tão pouco entendida! Quantas caixas de joias deste tipo, vedadas, jamais abertas, devemos guardar dentro de nós?
Curiosamente, havia gotas de água perto de mim, vindas de um esguicho de jardim que as havia lançado mais longe que o desejado; eram turvas, barrentas, e já formavam lama em alguma parte do caminho; definitivamente, não pareciam nada com oceano nenhum. Mas, de repente, uma voz interna retrucou, de forma bem enfática e convincente: “Não parece porque tem muito mais do que simplesmente água aí dentro; com tanta sujeira misturada, ela não é uma gota de água de verdade; se tirar tudo que não é gota, parece sim!”.
Que fulminante, aquilo: simplesmente fulminante. Um processo prodigioso começou a ocorrer dentro de mim: na mente, no coração, no corpo, sistêmico, portanto. Lembrei de quantas vezes tinha tentado entender esta frase, olhando para os homens e procurando por Deus, através deles, e não via nada de parecido, nada...se tirar tudo o que não é humano.. parece sim!
Numa velocidade impossível de precisar, mas que senti como quase instantânea, minha memória começou a puxar uma torrente de recordações, percorrendo minha vida de cima para baixo, como uma criança que, no Natal, procura os presentes escondidos pela casa. De repente, borbotões de visões de Deus amontoadas diante de mim, ou seja, momentos de pureza humana: desde o artesão simples que não aceitava quase nada por seu trabalho e que dizia que seu pagamento era minha alegria, até a criança que me presenteou, um dia, com uma caixinha de fósforo onde havia prendido um raio de sol (o mais bonito!) Desde o amigo que me surgiu com um telefonema “do nada” no momento de maior dificuldade, até a amiga que sempre aparecia a tempo de recolher a primeira lágrima que corria, sem necessitar de chamados ou apelos.  Desde o jovem quase desconhecido que acompanhou e velou por cada minuto de um momento doloroso, tornando a dor também sua, até a pré-adolescente que catou as moedinhas de sua pequena mesada para ajudar no enxoval de uma mulher gravida solitária e sem recursos, e embalou para presente parte do seu coração junto com aquelas coisinhas compradas... tantas e tantas coisas assim! Um exército poderoso e arrasador de memórias de Deus, diante do qual as sombras retrocederam imediatamente... uma espécie de pequena teofania, na medida das minhas possibilidades; simples, mas regada por algumas das mais belas lágrimas que já derramei na minha vida. Tão difícil reduzir a palavras este acontecimento!
Ajudar o homem a ser puro, a ser realmente e apenas humano, começando por nós mesmos, com certeza é abrir portas para que Deus seja cada vez mais visível no mundo; que simples e belo!
Terminei uma batalha bem travada com uma certeza, aguda e profunda, como que cravada na minha alma: se algumas das coisas que fiz na vida, uma ou duas que sejam, servirem de inspiração para que alguém, algum dia, também viva seu momento de pequena  “teofania”, terá valido a pena... para que mais? Porém, em meio a tanta banalidade e batalhas perdidas, diante de tantos recursos mal utilizados e desperdício de vida, talvez a pergunta a fazer a nós mesmos não seja essa. Diante de um objetivo tão absolutamente justo e humano, digno e inspirador... por que menos?



7 comentários:

  1. Linda crônica! Agora a frase faz muito mais sentido em mim. Grata!

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  2. Memórias de Deus
    .pura teofania...gratidão plena querida Xará que me ajudava transmutar energias sutis que me levam à Unidade...

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  3. Nos pequenos gestos, em pequenas recordações, alí está Deus e, na hora certa a ajuda vem, como agora lendo essa pérola divina.
    Travo uma batalha interior há tempos, muitíssimo grata, um abraço com muito amor.

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  4. Seu relato é o testemunho vivente de uma alma em pleno desenvolvimento espiritual, uma conexão entre o Outro em ti e sua consciência pessoal, à semelhança dos diálogos entre Tat, Hermes e o Nous!

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  5. Você consegue sempre tocar em um lugar dentro de mim do qual gosto bastante, um lugar escondidinho porque nem sempre encontra espaço pra se mostrar, mas que sempre é, nem que seja em segredo. Um abraço, Lúcia! Gratidão, muitas vezes, gratidão!

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