segunda-feira, 30 de junho de 2014

Ano novo, momento de renovar as esperanças; mas o que são mesmo “esperanças”?



Penso que todos nós ganharíamos muito se, ao invés de gastarmos nosso vocabulário inconscientemente, até tornar certas palavras “lugares comuns”, quase que totalmente esvaziadas de seu sentido original e até de credibilidade, tomássemos um tanto do nosso tempo para refletir sobre o que queremos mesmo dizer com estas mesmas palavras. Verdade, isso é passatempo de filósofo; mas você já experimentou? Sem querer desviar do assunto original para definir o que seria um filósofo, talvez você se descubra como um deles, ao saborear a oportunidade de falar palavras cada vez mais conscientes e fundamentadas...
Por exemplo: esperança; belíssima palavra! Mas significa o que, mesmo? Esperar? Agir? Sempre é positiva? Quando desejamos prosperar, por exemplo, (e todos desejamos!), nada mais estamos pedindo aos céus senão que se coloquem a favor (“pro”) de nossas esperanças (“spes”). Popularmente, costumamos ouvir que a esperança é “a luz no final do túnel”... Certo; então, ela é boa apenas para quem deseja sair do túnel! Se o desejo é adormecer dentro dele, a luz se torna apenas um incômodo para a vista.
Enfim, parece que, quem tem esperanças, faz mais do que esperar: pede a ela inspiração para caminhar, forças para lutar, energia para não desistir. E ela nos alenta e acompanha. Há uma história que circula pela internet, destas que ninguém sabe garantir bem a procedência ou a veracidade, mas que serve bem como ilustração, pois, se não for veraz por sua correspondência com fatos, é veraz como parábola, propícia a ilustrar uma ideia.
Trata-se de uma cobaia de laboratório, um pequeno roedor que foi jogado em uma tigela de água, em um experimento (mórbido e cruel experimento!) para saber quanto tempo resistia até se afogar. Num momento seguinte, uma outra cobaia foi colocada na mesma tigela, mas, instantes antes de se afogar, foi retirada e salva. Após seca e descansada, foi colocada novamente na tigela: mensurado o tempo, percebeu-se que ela se debatia o dobro do tempo normal, pois tinha a esperança de que alguém a resgatasse em algum momento... Sim, devo mil perdões pela barbárie do exemplo, e esclareço que sou eu a primeira a me horrorizar, com meu amor aos animais e meus sonhos juvenis de ser uma veterinária e cuidar deles pela vida afora. Mas lembrem: estamos usando a história como parábola, como ilustração imaginária, mas plausível, de quanto a esperança duplica nossa capacidade de resistir e lutar contra as adversidades, e não apenas de “esperar” que algo ou alguém as resolva.
“A esperança é um bom almoço, mas um mau jantar.”
Francis Bacon.
Se tomarmos um dia como miniatura de uma vida, ter esperanças ao meio-dia é normal, saudável e até necessário; mas ainda ter apenas esperanças no final da tarde significa que não fizemos mais do que “esperar”. Passamos da hora de correr atrás delas e transformá-las em fatos, na nossa vida. O que nosso amigo Francis Bacon, que, como todo filósofo, ama a linguagem simbólica, quis dizer é que há tempo para sonhar e há tempo para construir nossos sonhos. Aquilo que tem um sabor maravilhoso no almoço, no jantar, transforma-se apenas em restos, em sobras requentadas.
“A esperança é uma arma poderosa, e nenhum poder no mundo pode te privar dela.
Nelson Mandela.

Toda a autoridade do mundo tem o nosso saudoso Madiba para falar disso: 26 anos marcando os dias com riscos nas paredes de uma cela, para não se esquecer de que houve um primeiro dia e, logicamente, haverá um último, alentando com esperanças seus sonhos, mantendo-os vivos, trazendo- para atuar no mundo. Na história da humanidade, poucas foram as esperanças a quem devamos tanta gratidão quanto a estas. Ele realmente queria a luz no final do túnel, ou seja, sonhava com luz. Isso dá os matizes mais belos que uma esperança humana possa ter: suas asas translúcidas brilham com o reflexo deste Fogo de ideais tão belos e dignos.
“- Qual é o fantasma que nasce todas as noites, apenas para morrer quando chega a manhã?
- É a Esperança, responde o príncipe Calaf.”
Turandot, Giacomo Puccini.
A belíssima peça operística de Puccini, nesta célebre passagem, lembra-nos de um outro aspecto importantíssimo da esperança: no meio da noite mais escura, ela nos promete o dia que virá, e nos incita a caminhar para ele. No tempo da alma humana, não amanhece simplesmente porque esperamos, mas porque acreditamos e desejamos ardentemente a aurora, e trabalhamos para ela. A esperança colore de tons de azul e púrpura os nossos sonhos; dá-nos fôlego, mostra-nos o amanhecer como possível, traz tinta às nossas mãos e asas à nossa imaginação. Toda aurora do espírito humano é filha dessa grande artista: a esperança. 
“A esperança é um empréstimo que se pede à felicidade; há que pagá-lo!”
Joseph Joubert.
Sim, ela é a antecipação do fruto no meio da estiagem. Prova que o cultivo é válido e que o fruto é possível. Não é fantasia, é evidência, é um pedaço de futuro dado como amostra ao presente, para que provemos seu gosto e nos enamoremos dele. Todo filósofo, por exemplo, como amante da sabedoria (philos + sophos), provou, em suas esperanças, de uma fatia desta sabedoria, servida em bandeja de ouro, e descobriu que não há gosto mais doce e delicado ao paladar no mundo inteiro do que este. E agora, busca esta sabedoria com todo seu ardor. O homem sem esperanças torna-se um enfastiado, sem impulso ou garra, sujeito à inanição a qualquer momento.
“Mais do que mil palavras sem sentido, vale uma única palavra que traz consolo a quem a ouve.”
“O Dhammapadha”, livro sagrado budista.
Sim, eis uma grande e digna esperança humana: não deixar este mundo sem pronunciar pelo menos uma palavra deste tipo, que traz consolo ao sofrimento humano. Trata-se da nossa identidade mais profunda, daquilo que viemos acrescentar ao mundo, da palavra que só nós podemos pronunciar. Sempre tive grande admiração por um mítico herói grego, Fidípides, um hemeródromo (corredor que ia de uma cidade a outra levando mensagens urgentes) que, entre outras façanhas, correu os 42 quilômetros da planície de Maratona até a cidade de Atenas para avisar que os gregos haviam vencido os persas e evitar que a cidade fosse destruída. Este herói guardou fôlego suficiente para dizer a palavra necessária e redentora: nenikekamen, vencemos!  E tombou morto, mas em paz, com sua missão cumprida.
Sempre achei que cada ser humano tem seu nenikekamen a dizer antes da inevitável queda que nos espera a todos, no final. Se não o fizermos, algo, pequeno ou grande, mas tão belo quanto Atenas, deixará de existir no mundo. Talvez os sonhos de alguém, talvez suas esperanças... Para mim, a busca desta palavra sagrada, que dará sentido a tudo, é o grande sonho, a luz no fim do túnel; há que aprender da vida para ter o que dizer e aprender a língua da vida para saber como dizê-lo, além de guardar fôlego suficiente para pronunciá-lo. Talvez seja a única coisa válida por trás de todas as sombras que nos cercam e angustiam, nas noites que temos atravessado.
Às vésperas de mais um ano novo, leitor nem tão desconhecido, pois que humano como eu, vivendo os mesmos dilemas que eu, desejo que tuas esperanças te levem até o amanhecer, com levaram o príncipe Calaf. “Nessun dorma”, ninguém durma, o príncipe pedia através de seu canto, numa ária deslumbrante. Não durmam , não esqueçam, mantenham-se despertos, esperançosos, fiéis a si mesmos e à sua imprescindível mensagem, que devem portar até que amanheça: “nenikekamen”! Esse será nossa maior preciosidade, a síntese de nossas vidas, trazida até a aurora nos braços das nossas mais caras esperanças.

Um comentário:

  1. Essa esperança acalentada aos que buscam a verdade é uma reminiscência divina gravada com o fogo do espírito latejando em nossos corações para que despertemos de nossa inconsciência mayavica e alcemos a outra Natureza não mais dual e efêmera porém estática e perfeita.

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