segunda-feira, 30 de junho de 2014

A Lógica e a Inteligência da Vida:

Para Mônica Dias e Ricardo Vela.

No aeroporto, uma menininha pedia que a mãe abrisse um pacote de m&m’s. A mãe atendia, sorridente, ao seu pedido, e lhe devolvia o pacote aberto, junto com um beijo; singela e meiga cena. Um dia, a menina crescerá; já poderá abrir, e até mesmo comprar seu próprio pacote de m&m’s, ou outra coisa qualquer que deseje. Ainda assim, amará a mãe, mas será... um pouco diferente. Chegará um tempo, mais ainda no futuro, em que a mãe já não poderá comprar nem abrir seu próprio pacote de m&m’s, e a filha abrirá para ela; os sentimentos ainda estarão aí, mas ainda mais diferentes que na cena anterior: a filha agora tem seus filhos, seu trabalho... as demandas da sua própria vida, e a mãe terá que achar espaço no meio delas. Um espaço que, em geral, se estreita quando o tempo avança.
Em tudo isso, guardando lugar para as sempre possíveis variações individuais, os sentimentos sofrem variações previsíveis e “mapeáveis” com antecedência, até. É a chamada “dança da vida”, com passos nem sempre tão belos, algumas vezes dolorosos para seus integrantes. Isso transmite uma impressão estranha: como se fôssemos executantes de um “software” cujo final, um tanto amargo, já conhecemos desde a aquisição do “pacote”.
Quando vivemos um momento como o que hoje vivo, em que alguém que amamos se vai, algumas vezes, a vida nos surpreende com algo não previsto em nenhum software conhecido: pessoas sem qualquer vínculo de sangue físico, capazes de entrar na tua dor e dividi-la contigo, por simples compromisso com a dor humana. Pessoas que tomam para si a tua dor e “pagam o preço” junto contigo. Pessoas...
Isso me faz pensar sobre a margem de imprevisibilidade dos sentimentos humanos; parece que existe uma “quota básica” dos mesmos, incluída no “pacote vida” adquirido, mas isso não é tudo: é apenas o começo. A partir daí, parece que o sentimento humano envereda por uma outra lógica, sem algoritmo previsível, uma espiral ascendente e ousada, bela e... humana. Ainda iremos querer nossos pacotes de m&m’s, talvez, podendo ou não adquiri-lo ou abri-lo sozinhos; mas haverá mais que prazeres e desejos deste pequeno eu, amante de chocolates e de si mesmo, e de não muito mais. Que insólito processo o homem é capaz de desencadear ao desbravar novos circuitos de sensibilidade e necessidade, como se trouxesse o coração do outro para si; já não é gratidão, convenção ou protocolo social que rege o processo; é só...coração.
Isso surpreende, e dá um novo sabor de aventura à vida; quem sabe o que ainda virá, quantos corações conseguiremos compactar e incluir dentro do nosso? Aonde as necessidades deles nos levarão? Posso mesmo ousar imaginar o ponto final deste processo: todos os corações dentro de um só; todas as necessidades humanas demarcando o seu destino; um espaço que se expande quando a vida avança; uma outra lógica... Só o vislumbre dessa possibilidade dá uma nova perspectiva à vida, mais doce que m&m’s, mais contundente convite ao voo rumo a um céu humano de possibilidades do que qualquer aeroporto do mundo possa simbolizar.


Se tem um nome para isso, talvez seja... Humanidade; esse território inexplorado e belo como um conto de fadas; acho mesmo que estes contos são diários de viagem de quem andou por aí, e quis nos deixar uma trilha, um passaporte. Honra, nobreza, grandes desafios compartilhados, amores eternos... onde? Nos caminhos tão pouco explorados... do coração humano, quando se abre e se expande além de qualquer “script”, por um simples e grandioso ato de amor e de vontade.


Filosofia e seitas: uma reflexão útil...

Uma das polêmicas mais acirradas que circulam hoje sobre o significado de palavras em geral gravita em torno da palavra “seita”.  Proveniente do latim sequire , "seguir", normalmente trata, em uso corrente, de ideologias divergentes da oficial e com tendência ao isolamento social. Em extremo, podem se referir a grupos que cultivam excessiva devoção e obediência a um líder, de quem são “seguidores”, com uso de técnicas de persuasão opressivas ou manipuladoras.
Como mesmo estes adjetivos são todos muito cheios de matizes, ao nos prolongarmos neste assunto, cairíamos num sem-fim de etimologias e conceitos discutíveis, mas não é este o nosso objetivo. É preciso perceber o que propõem, não as “filosofias”, pois é outro escorregadio conceito, uma vez que todo conjunto de ideias, homogêneo e coerente ou não, se intitula desta maneira, mas a Filosofia, tradicional e clássica, com a proposta que a trouxe à vida, e se isso se assemelha em alguma medida às chamadas “seitas’. 
Penso que podemos nos apoiar em um dos mais conhecidos pensadores da humanidade, Sócrates, em uma de suas falas igualmente conhecidas, para começo de conversa: “Só sei que nada sei”. Pode parecer um paradoxo ou uma frase de efeito, à primeira vista, mas constitui um pensamento que define muito bem um filósofo: enquanto a média das pessoas se equilibra sobre supostas certezas, o filósofo encontra segurança exatamente em suas incertezas, ou seja, em saber que seus conceitos sobre o mundo são todos provisórios, apenas o melhor que logrou obter até agora, mas possui a permanente determinação de utilizar as oportunidades de aprendizado que a vida lhe oferece para aperfeiçoar estes conceitos. Em suma, o filósofo é sempre um ser em construção e um aprendiz.
Tem certezas? Sim, está certo de que o sentido da vida humana é o aperfeiçoamento, e que há um aperfeiçoamento próprio dos seres humanos, que reside na compreensão e vivência de valores universais, tais como fraternidade, bondade, justiça etc. Para isso, vasculha o passado e observa o presente, atento e curioso, sempre buscando elementos que possam lhe servir de tema de reflexão sobre como melhor entender e viver estes valores. Ou seja, ama Platão, mas está disposto a aprender com o João da Silva, se este tem algo a lhe oferecer que forneça resposta satisfatória às suas questões sobre a difícil arte de viver como homens. Ou seja, não “segue” ninguém, mas é fiel a algo, em si mesmo, que tem sempre sede de coerência e crescimento. De Platão a João, sabe que todos os homens são duais, uma mistura de “um e outro”, de luz e sombra, e que sempre se pode aprender um pouco com sua luz e oferecer-lhe algo da nossa, como essência da arte de viver.
A Filosofia isola? Nunca. É muito mais fácil para alguém que cresce na compreensão de si mesmo e do homem em geral entender as razões e necessidades que movem aquele parente excessivamente aficionado por uma linha religiosa ou o amigo ligado de forma muito entusiástica a uma visão política em especial, do que alguém que não o faz. O fenômeno humano, com suas buscas e angústias, conscientes ou não,  interessa-lhe, e sempre busca formas de entender onde se localiza cada homem, quais as necessidades que o levaram até aí, e como ajudá-lo a partir do que é e de onde está, subir mais um degrau rumo à realização humana.
Questionador? Sempre, mas não pelo prazer de contestar, e sim pelo amor à investigação e compreensão da vida. Como uma criança, a observação a fundo de cada detalhe e momento, banal para outros, o deslumbra. Ama a figura de um Da Vinci que se debruça sobre uma simples planta, copiando, meticuloso, o intrincado desenho das nervuras de suas folhas. Nunca responde a circunstâncias semelhantes de maneira igual: uma mesma pergunta feita em dois tempos apresenta o matiz da transformação de quem fala, de quem ouve, do tempo. Sempre diferencia, examina e se detém no aprendizado que cada peculiaridade da vida lhe traz; ama dialogar com a vida... cada nova ´possibilidade descoberta lhe traz mais liberdade: um mundo mais amplo por onde transitar e investigar; por isso, não teme o novo, nunca rejeita nada “a priori”, nem julga o que não conhece. 
Absolutamente fiéis e obedientes àquilo que percebem como valores universais, humanos, nobre e justos, são os filósofos os homens mais livres que há: não carregam o peso de presunções nem de preconceitos: estão sempre leves e puros ante a vida.  Não temem o conhecimento, pois sabem que este lhes dá sempre mais espaço vital; dispostos a se reconstruírem e a crescerem, não carregam nem sequer o peso de uma identidade rígida e “concretada” pela inércia do que foram até aqui. Não temem pensar como todos nem diferente de todos; não temem pensar, enfim. 
Não buscam recompensas senão a de serem cada vez mais humanos, nem temem castigos que não a ignorância e o estatismo. Difícil manipulá-los, pois nada que querem ou temem está fora de si próprios. Amantes da natureza humana,são dos que mais a compreendem, e com ela se comprometem. Por onde passaram os maiores dentre eles, na História, varreram a barbárie e a ignorância com uma chamada poderosa em prol da fraternidade, do ecletismo e do autoconhecimento.
Seja lá o que for que se denomine como seita, há que saber que nada há  tão antípoda a este conceito quanto a Filosofia, esta saudável e luminosa arte ou ciência, que sempre trabalhou para desenvolver o senso e o discernimento humanos.

Ano novo, momento de renovar as esperanças; mas o que são mesmo “esperanças”?



Penso que todos nós ganharíamos muito se, ao invés de gastarmos nosso vocabulário inconscientemente, até tornar certas palavras “lugares comuns”, quase que totalmente esvaziadas de seu sentido original e até de credibilidade, tomássemos um tanto do nosso tempo para refletir sobre o que queremos mesmo dizer com estas mesmas palavras. Verdade, isso é passatempo de filósofo; mas você já experimentou? Sem querer desviar do assunto original para definir o que seria um filósofo, talvez você se descubra como um deles, ao saborear a oportunidade de falar palavras cada vez mais conscientes e fundamentadas...
Por exemplo: esperança; belíssima palavra! Mas significa o que, mesmo? Esperar? Agir? Sempre é positiva? Quando desejamos prosperar, por exemplo, (e todos desejamos!), nada mais estamos pedindo aos céus senão que se coloquem a favor (“pro”) de nossas esperanças (“spes”). Popularmente, costumamos ouvir que a esperança é “a luz no final do túnel”... Certo; então, ela é boa apenas para quem deseja sair do túnel! Se o desejo é adormecer dentro dele, a luz se torna apenas um incômodo para a vista.
Enfim, parece que, quem tem esperanças, faz mais do que esperar: pede a ela inspiração para caminhar, forças para lutar, energia para não desistir. E ela nos alenta e acompanha. Há uma história que circula pela internet, destas que ninguém sabe garantir bem a procedência ou a veracidade, mas que serve bem como ilustração, pois, se não for veraz por sua correspondência com fatos, é veraz como parábola, propícia a ilustrar uma ideia.
Trata-se de uma cobaia de laboratório, um pequeno roedor que foi jogado em uma tigela de água, em um experimento (mórbido e cruel experimento!) para saber quanto tempo resistia até se afogar. Num momento seguinte, uma outra cobaia foi colocada na mesma tigela, mas, instantes antes de se afogar, foi retirada e salva. Após seca e descansada, foi colocada novamente na tigela: mensurado o tempo, percebeu-se que ela se debatia o dobro do tempo normal, pois tinha a esperança de que alguém a resgatasse em algum momento... Sim, devo mil perdões pela barbárie do exemplo, e esclareço que sou eu a primeira a me horrorizar, com meu amor aos animais e meus sonhos juvenis de ser uma veterinária e cuidar deles pela vida afora. Mas lembrem: estamos usando a história como parábola, como ilustração imaginária, mas plausível, de quanto a esperança duplica nossa capacidade de resistir e lutar contra as adversidades, e não apenas de “esperar” que algo ou alguém as resolva.
“A esperança é um bom almoço, mas um mau jantar.”
Francis Bacon.
Se tomarmos um dia como miniatura de uma vida, ter esperanças ao meio-dia é normal, saudável e até necessário; mas ainda ter apenas esperanças no final da tarde significa que não fizemos mais do que “esperar”. Passamos da hora de correr atrás delas e transformá-las em fatos, na nossa vida. O que nosso amigo Francis Bacon, que, como todo filósofo, ama a linguagem simbólica, quis dizer é que há tempo para sonhar e há tempo para construir nossos sonhos. Aquilo que tem um sabor maravilhoso no almoço, no jantar, transforma-se apenas em restos, em sobras requentadas.
“A esperança é uma arma poderosa, e nenhum poder no mundo pode te privar dela.
Nelson Mandela.

Toda a autoridade do mundo tem o nosso saudoso Madiba para falar disso: 26 anos marcando os dias com riscos nas paredes de uma cela, para não se esquecer de que houve um primeiro dia e, logicamente, haverá um último, alentando com esperanças seus sonhos, mantendo-os vivos, trazendo- para atuar no mundo. Na história da humanidade, poucas foram as esperanças a quem devamos tanta gratidão quanto a estas. Ele realmente queria a luz no final do túnel, ou seja, sonhava com luz. Isso dá os matizes mais belos que uma esperança humana possa ter: suas asas translúcidas brilham com o reflexo deste Fogo de ideais tão belos e dignos.
“- Qual é o fantasma que nasce todas as noites, apenas para morrer quando chega a manhã?
- É a Esperança, responde o príncipe Calaf.”
Turandot, Giacomo Puccini.
A belíssima peça operística de Puccini, nesta célebre passagem, lembra-nos de um outro aspecto importantíssimo da esperança: no meio da noite mais escura, ela nos promete o dia que virá, e nos incita a caminhar para ele. No tempo da alma humana, não amanhece simplesmente porque esperamos, mas porque acreditamos e desejamos ardentemente a aurora, e trabalhamos para ela. A esperança colore de tons de azul e púrpura os nossos sonhos; dá-nos fôlego, mostra-nos o amanhecer como possível, traz tinta às nossas mãos e asas à nossa imaginação. Toda aurora do espírito humano é filha dessa grande artista: a esperança. 
“A esperança é um empréstimo que se pede à felicidade; há que pagá-lo!”
Joseph Joubert.
Sim, ela é a antecipação do fruto no meio da estiagem. Prova que o cultivo é válido e que o fruto é possível. Não é fantasia, é evidência, é um pedaço de futuro dado como amostra ao presente, para que provemos seu gosto e nos enamoremos dele. Todo filósofo, por exemplo, como amante da sabedoria (philos + sophos), provou, em suas esperanças, de uma fatia desta sabedoria, servida em bandeja de ouro, e descobriu que não há gosto mais doce e delicado ao paladar no mundo inteiro do que este. E agora, busca esta sabedoria com todo seu ardor. O homem sem esperanças torna-se um enfastiado, sem impulso ou garra, sujeito à inanição a qualquer momento.
“Mais do que mil palavras sem sentido, vale uma única palavra que traz consolo a quem a ouve.”
“O Dhammapadha”, livro sagrado budista.
Sim, eis uma grande e digna esperança humana: não deixar este mundo sem pronunciar pelo menos uma palavra deste tipo, que traz consolo ao sofrimento humano. Trata-se da nossa identidade mais profunda, daquilo que viemos acrescentar ao mundo, da palavra que só nós podemos pronunciar. Sempre tive grande admiração por um mítico herói grego, Fidípides, um hemeródromo (corredor que ia de uma cidade a outra levando mensagens urgentes) que, entre outras façanhas, correu os 42 quilômetros da planície de Maratona até a cidade de Atenas para avisar que os gregos haviam vencido os persas e evitar que a cidade fosse destruída. Este herói guardou fôlego suficiente para dizer a palavra necessária e redentora: nenikekamen, vencemos!  E tombou morto, mas em paz, com sua missão cumprida.
Sempre achei que cada ser humano tem seu nenikekamen a dizer antes da inevitável queda que nos espera a todos, no final. Se não o fizermos, algo, pequeno ou grande, mas tão belo quanto Atenas, deixará de existir no mundo. Talvez os sonhos de alguém, talvez suas esperanças... Para mim, a busca desta palavra sagrada, que dará sentido a tudo, é o grande sonho, a luz no fim do túnel; há que aprender da vida para ter o que dizer e aprender a língua da vida para saber como dizê-lo, além de guardar fôlego suficiente para pronunciá-lo. Talvez seja a única coisa válida por trás de todas as sombras que nos cercam e angustiam, nas noites que temos atravessado.
Às vésperas de mais um ano novo, leitor nem tão desconhecido, pois que humano como eu, vivendo os mesmos dilemas que eu, desejo que tuas esperanças te levem até o amanhecer, com levaram o príncipe Calaf. “Nessun dorma”, ninguém durma, o príncipe pedia através de seu canto, numa ária deslumbrante. Não durmam , não esqueçam, mantenham-se despertos, esperançosos, fiéis a si mesmos e à sua imprescindível mensagem, que devem portar até que amanheça: “nenikekamen”! Esse será nossa maior preciosidade, a síntese de nossas vidas, trazida até a aurora nos braços das nossas mais caras esperanças.

Um momento...

Em um deste dias, no meio de uma batalha épica contra formas mentais circulares, quase capitulando diante de um inimigo que ganhava trincheira a trincheira, eu procurava uma ideia poderosa o suficiente para me socorrer e inverter aquele placar ingrato. Após várias tentativas frustradas (o adversário não estava para brincadeiras), me veio a ideia redentora: por que não pensar... em Deus? Se há uma forma mental com poder de fogo contra artilharia pesada, deve ser esta, com certeza...
Porém, as ideias muito boas costumam ser de difícil implementação: o que significa exatamente “pensar em Deus”?  As imagens correram pela minha memória, sem muito sucesso: símbolos religiosos, livros sagrados, orações e até imagens de nascer e pôr do sol.... sim, talvez estas coisas o representem ou evoquem, em alguma medida e em algum momento, para alguém. Mas não são propriamente Ele; não o explicitam ou mostram de forma tão direta e, portanto, careciam, para mim, da força que eu necessitava naquele instante.
Rastreando minha memória, dei com uma muito famosa frase da filósofa Helena Blavatsky, que dizia mais ou menos seguinte: “Um único homem prova a existência de Deus, assim como uma única gota d’água prova a existência do Oceano.” Frase bela e muitas vezes repetida, com toda “pompa e circunstância”... mas tão pouco entendida! Quantas caixas de joias deste tipo, vedadas, jamais abertas, devemos guardar dentro de nós?
Curiosamente, havia gotas de água perto de mim, vindas de um esguicho de jardim que as havia lançado mais longe que o desejado; eram turvas, barrentas, e já formavam lama em alguma parte do caminho; definitivamente, não pareciam nada com oceano nenhum. Mas, de repente, uma voz interna retrucou, de forma bem enfática e convincente: “Não parece porque tem muito mais do que simplesmente água aí dentro; com tanta sujeira misturada, ela não é uma gota de água de verdade; se tirar tudo que não é gota, parece sim!”.
Que fulminante, aquilo: simplesmente fulminante. Um processo prodigioso começou a ocorrer dentro de mim: na mente, no coração, no corpo, sistêmico, portanto. Lembrei de quantas vezes tinha tentado entender esta frase, olhando para os homens e procurando por Deus, através deles, e não via nada de parecido, nada...se tirar tudo o que não é humano.. parece sim!
Numa velocidade impossível de precisar, mas que senti como quase instantânea, minha memória começou a puxar uma torrente de recordações, percorrendo minha vida de cima para baixo, como uma criança que, no Natal, procura os presentes escondidos pela casa. De repente, borbotões de visões de Deus amontoadas diante de mim, ou seja, momentos de pureza humana: desde o artesão simples que não aceitava quase nada por seu trabalho e que dizia que seu pagamento era minha alegria, até a criança que me presenteou, um dia, com uma caixinha de fósforo onde havia prendido um raio de sol (o mais bonito!) Desde o amigo que me surgiu com um telefonema “do nada” no momento de maior dificuldade, até a amiga que sempre aparecia a tempo de recolher a primeira lágrima que corria, sem necessitar de chamados ou apelos.  Desde o jovem quase desconhecido que acompanhou e velou por cada minuto de um momento doloroso, tornando a dor também sua, até a pré-adolescente que catou as moedinhas de sua pequena mesada para ajudar no enxoval de uma mulher gravida solitária e sem recursos, e embalou para presente parte do seu coração junto com aquelas coisinhas compradas... tantas e tantas coisas assim! Um exército poderoso e arrasador de memórias de Deus, diante do qual as sombras retrocederam imediatamente... uma espécie de pequena teofania, na medida das minhas possibilidades; simples, mas regada por algumas das mais belas lágrimas que já derramei na minha vida. Tão difícil reduzir a palavras este acontecimento!
Ajudar o homem a ser puro, a ser realmente e apenas humano, começando por nós mesmos, com certeza é abrir portas para que Deus seja cada vez mais visível no mundo; que simples e belo!
Terminei uma batalha bem travada com uma certeza, aguda e profunda, como que cravada na minha alma: se algumas das coisas que fiz na vida, uma ou duas que sejam, servirem de inspiração para que alguém, algum dia, também viva seu momento de pequena  “teofania”, terá valido a pena... para que mais? Porém, em meio a tanta banalidade e batalhas perdidas, diante de tantos recursos mal utilizados e desperdício de vida, talvez a pergunta a fazer a nós mesmos não seja essa. Diante de um objetivo tão absolutamente justo e humano, digno e inspirador... por que menos?



sexta-feira, 27 de junho de 2014

Tanta pressa...


Mais uma manhã, tarde e noite, indo e voltando, com carros que passam voando por mim. Um dia, minha filha me falou que as pessoas deveriam colocar o número do seu celular no vidro... “- Para quê, minha filha?”, perguntei, sem captar o tom levemente irônico na voz: “- Para ligarmos e sabermos se deu tempo, mãe! Deve ser muito urgente o que ele vai fazer!”
É verdade; deve ser mais do que urgente: deve ser desesperador. Sem bairrismos, Brasília deve ter alguns dos mais belos amanhecereres e crepúsculos do mundo; sempre se pode ouvir algum sabiá dobrando o trinado, pelo caminho; sempre se vê algum cãozinho desocupado rebolando de barriga para cima na grama úmida (deve ser muito bom, isso!). Mas nós....temos pressa.
Não vou aqui delinear o óbvio, que todos já preveem: a maioria absoluta não tem pressa nenhuma. Correm para a televisão, para a mecanicidade, para o sono, para a solidão. Não há alvo a alcançar com essa correria; em geral, nada que seja urgente ou que tenhamos sabido tornar importante.
Depois de anos sem entender e nem mesmo me perguntar pelas razões disso, acabei convidada, pelas circunstâncias, a uma resposta. Numa estrada vazia, um caminhão seguia a uns 40 ou 50 km; coloquei minha seta e o ultrapassei, como de praxe. Porém, ao passar ao seu lado, seu olhar me chamou a atenção: era raiva incontida que havia ali, era frustração, como se eu o humilhasse ao ultrapassá-lo. Numa descida, ele embalou seu caminhão e me passou a mais de 120 km, num lance que, mais que excesso de velocidade, demonstrava triunfo e vingança.
Esse motorista me fez prestar atenção a este fato tão simples e cotidiano: ultrapassagens. Percebi que não se trata de pressa propriamente dita, mas de afirmação pessoal. Todo ser humano necessita de seu “minuto de glória”, de vitória, de superação de algo; no vazio de uma vida banal e sem objetivos, eu me afirmo superando o carro à minha frente; provo a ele, por um minuto, que sou melhor motorista, que tenho melhor carro, que sou especial. “- Passar na minha frente? Que desaforo! Está pensando o quê?”
É claro que esta competitividade selvagem que tanto nos escraviza não deve se mostrar apenas aí; este é apenas o seu momento de exibição mais ridícula (ou não?). Sem fôlego ou musculatura moral para superar a nós mesmos, sem vida interior para nos alimentarmos de alvoradas ou de crepúsculos, sem sonhos nem objetivos maiores, vivemos numa marcação palmo a palmo contra aqueles que passam por nós. Sempre “contra”, e não “com”. Sempre sozinhos... e correndo para o nada. Não importa o destino, mas chegar primeiro; e se o destino for um abismo?
Que insólito... os corredores compulsivos são, na verdade, sedentos compulsivos, querendo, inconscientemente, chegar a um lugar ao qual não se vai de carro: ao fundo de si mesmos, para encontrar seus sonhos, para alcançar um sentido maior e real para suas vidas. Concordo: isso é urgente, mesmo. Por isso e por tantas outras coisas, eu, agora, passando por um  horizonte cravado de raios vermelhos, como uma despedida tardia da luz que já se foi, levando mais um dia que nunca se repetirá, reflito comigo mesma : que bom motivo este para realizar o meu melhor, para rastrear e encontrar este caminho e, depois de tudo, empenhar o meu melhor esforço... para construir um mapa. Isso é o ofício e o sonho dos aprendizes de filósofos, amantes de sabiás, de auroras e de vidas vividas sem pressa e sem pausa.

Voluntariado

“Onde encontro um ser mortal, encontro Vontade de Poder.”
Frase atribuída ao filósofo F. Nietzsche

No próximo dia 28 de agosto, comemoraremos o Dia Nacional do Voluntariado, instituído, no Brasil, em 1985. Na Organização Internacional Nova Acrópole, voluntariado é o nosso dia a dia; no meu caso, já há 26 anos. Portanto, creio que poderia dizer algo sobre este dia e sobre essa virtude humana.
Não escapa à atenção de ninguém o fato de que o voluntariado tem sido abraçado por uma cada vez maior quantidade de seres humanos e instituições, e de que isso é uma esperança. Mas, como tudo que é humano pode ser sempre aperfeiçoado, acrescento algumas observações minhas a respeito do assunto.
Já encontrei vários tipos de voluntários; alguns o faziam por se acharem em falta com os homens ou com Deus, e por quererem “saldar” este débito por erros passados. Esse é um voluntariado que tem data para terminar (quando resgatada a última “prestação” dos enganos que se pensa ter cometido), e não deixa de ter uma mácula de egoísmo. Você me dirá, talvez: “Melhor assim do que não fazer nada!” Eu concordo; mas acho que essa ação poderia se aperfeiçoar ao longo do tempo, e harmonizar fins e meios; afinal, a busca da coerência e da harmonia também é virtude.
Outros há que sentem a necessidade de fazer um sacrifício em prol do bem alheio; também acho válido, e até belo o espírito do sacrifício. Mas esta postura sempre me faz lembrar de alguém que, um dia, após uma boa ação, desferiu a seguinte sentença: “Eu abri mão de muitas coisas por isso!” A expressão caiu mal, e me pareceu um lamento por perder algo de maior valor, em termos de prazer e satisfação, por algo de menor valor, dolorido, “sacrificado”. Ainda não é bem o espírito do voluntariado com que sonhamos.
Um dia desses, lendo Nietzsche, ouvi-o falar sobre a “vontade de poder”, e lembrei-me de que voluntariado vem do latim “voluntas”, vontade, e pensei se essa não seria uma boa explicação do que buscamos que seja o legítimo voluntariado. Ele diz que é inútil a moral que busca converter o homem através de máximas insípidas, como “seja bonzinho, seja bem comportado etc”. Todo ser humano busca, consciente ou inconscientemente, o Poder, e isso pode ser educado e convertido em ações morais.
Aí, chocamos com um preconceito nosso: “Mas o Poder corrompe...”. Não creio. Situações de Poder dão oportunidade para que a corrupção, que já estava latente neste homem em particular, se manifeste. Como dizia Machado de Assis, está errada a máxima popular que afirma que a ocasião faz o ladrão: “A ocasião faz o furto: o ladrão já nasce feito.” Poder é capacidade de ser, de fazer, de realizar, de transformar. A própria etimologia do nome poder vem do latim “potis esse”: posse do ser. É o atributo mais divino que consigo imaginar: não ouso pensar em um Deus débil... Quem nega o poder, faz culto, inconscientemente, à  debilidade.
Quando olhamos para o passado, longínquo ou recente, e vemos a grandeza, a pureza e a bondade que certos homens foram capazes de manifestar, não podemos nos furtar à conclusão de que esse potencial humano também existe,  adormecido, em nós. Não é à toa que o filósofo Platão dizia que todo homem deveria se inspirar em heróis, pois eles relembram quão grandes nós podemos chegar a ser.
Enamorar-se dessa nobreza latente que a nossa natureza presume e querer profundamente vive-la, trazê-la à tona, é Vontade de Poder. Continuava Nietzsche: “Há que substituir os códigos de moral por códigos de nobreza...”. Eu não chegaria a este exagero (tão tipicamente “nitzscheano”) de abolir códigos de moral, pelo menos não tão cedo, mas chego realmente a duvidar de que alguém ousaria dizer: “Eu sacrifiquei muita coisa para ser humano, para ser nobre...” O que você sacrificou, meu caro? O que havia de melhor, na sua vida, do que isso? E, se aquilo que foi “sacrificado” era inferior ao que ganhou, por que o lamento? Não seria mais lógico dizer: ”Eu sacrifiquei muito voluntariado por banalidades momentaneamente prazerosas, mas sem maior valor”?
Eu me chamo Lúcia Helena Galvão Maya, voluntária da Organização Internacional Nova Acrópole há 26 anos, trabalhando quase todos os dias por aquilo que acredito. O meu não é um voluntariado “perfeito”, pois eu mesma estou muito longe disso: faço apenas o melhor que posso. Mas, como filósofa, não abro mão do direito de sonhar com um voluntariado que seja glória e êxtase pela condição humana que me cabe, momento de felicidade e de realização não permutável por nada neste mundo. Isso me torna um ser em construção, enamorada da vida humana e dos seus sonhos mais dignos, entre os quais está o de servir ao Bem, e servir voluntariamente. Parabéns, Voluntários, pelo seu dia!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Sobre mulheres, princesas e libélulas...



Alguém já deve ter assistido a um filme produzido em 1995 chamado “A Princesinha”, daqueles que pretendem ser infantis mas acabam sendo para todas as idades; é algo como um mito moderno, com um visual deslumbrante. Lá pelas tantas, no filme, a menina Sarah, a princesinha do título, dispara a seguinte frase para a Srta. Minchin, mulher amarga e fria que a acusara de não ser mais uma princesa, pois seu pai morrera na guerra e a deixara sem nada: “Todas as mulheres são princesas; ainda as que não são belas, ainda as que já não são jovens... todas as mulheres são princesas! É um direito nosso! Seu pai não lhe ensinou isso? Não lhe ensinou?”
Quando busco na memória por belas imagens de filmes assistidos, esta cena é lembrada sempre com muito carinho, quase como se fosse uma “profissão de fé”: eu sou uma princesa, todas nós somos! Como pudemos duvidar disso?
Neste momento, passa por mim uma elegante jovem com saltos altos e finos; acho curioso como é natural na mulher saber que o belo vale mais que o cômodo; como sabe que, quanto menos tocar no chão, quanto mais buscar o elevado, o celeste, mais bela e delicada ela fica; é quase que uma intuição (atributo que também é forte no feminino). E os sentimentos femininos? Todos tendem também para o céu; importa muito pouco a aparência física de alguém, se este alguém é honesto e gentil, ou se é frágil e desprotegido, e necessita de nossa atenção. Pode se tratar de uma plantinha ou de uma flor, um pequeno animal ou uma pessoa... Nossos sentimentos sempre usam “saltos altos”: admiram e cultivam a alma dos fortes, ou envolvem e acalentam os frágeis, motivadas por esta explosão de realização que traz, para qualquer mulher, a oportunidade que a vida nos dá de transbordar amor, o qual se realiza no próprio ato de “transbordar”, e basta-se a si mesmo.
Nossa energia não é de explosão, mas contínua e tenaz, capaz de velar pela vida por todas as noites que esta mesma vida nos oferecer, sabendo alimentar-se do bem estar e crescimento do outro como única e valorosa recompensa. Penso que até as plantas do jardim se sentem mais serenas quando uma mão feminina as cuida; sentem que esta mão não faltará, que sempre estará ali, ainda em dias de tempestade. Pois cuidar da vida no meio da tempestade tem algo de heroísmo e glória para o feminino, que nunca recusa esta oportunidade.
Como sabemos mergulhar no mundo mental com objetividade e prática, buscando a solução para aquilo que necessitamos resolver! O ato de custodiar não permite protelações ou divagações, pois a vida tem seus ritmos a serem respeitados. Sempre voltamos deste plano com o alimento de que necessitamos: temos tantos filhos à nossa espera!
Outra curiosidade é que talvez nosso principal adorno seja uma grande pedra de ímã: tudo e todos se agregam à nossa volta; somos ponto de encontro, de harmonia e de união. A matriarca, madura e ponderada, é sempre o coração de todo clã.
E o nosso coração? Ah, se os cavalheiros soubessem como é ousado o sonho do nosso coração! Dizem os conhecedores que o arquétipo feminino em relação a todo cavalheiro se identifica muito bem com o personagem Lancelot, da saga do Rei Arthur: idealista, nobre, a serviço de uma causa humana, maior do que sua própria e simples existência material. Como nosso amor é, por definição, idealista, idealizador e celeste, sempre guardamos a propriedade de poder presentear asas a quem amamos; como é triste guardar estas asas eternamente, pois não encontramos ninguém que queira voar...
Quando eu era pequena, acreditava firmemente que as libélulas eram fadinhas encantadas por uma bruxa malvada, tocando as águas em busca de encontrar seu antigo reflexo...  Hoje, penso que as mulheres são libélulas encantadas pela maldição do esquecimento de sua própria identidade; esquecem que devem apenas roçar as águas do mundo material com “saltos altos”, delicadamente, formando círculos concêntricos infinitos, e que sempre devem ter um duplo par de asas, pois há que ter um de reserva...  Sempre pode haver alguém, por aí, que entenda a caminhada de Lancelot, a necessidade das princesas e o sonho das libélulas. Neste sonho, reside a nossa única, real e legítima identidade; afinal, nossos sonhos também são nossos filhos, a serem cuidados e alimentados...